segunda-feira, 20 de junho de 2011

Em Defesa da Fé Bíblica- A Declaração de Cambridge

                                       A Declaração de Cambridge

As igrejas evangélicas de hoje estão cada vez mais dominadas pelo espírito deste século em vez de pelo Espírito de Cristo. Como evangélicos, nós nos convocamos a nos arrepender desse pecado e a recuperar a fé cristã histórica.
No decurso da História, as palavras mudam. Na época atual isso aconteceu com a palavra evangélico. No passado, ela serviu como elo de união entre cristãos de uma diversidade ampla de tradições eclesiásticas. O evangelicalismo histórico era confessional. Acolhia as verdades essenciais do Cristianismo conforme definidas pelos grandes concílios ecumênicos da Igreja. Além disso, os evangélicos também compartilhavam uma herança comum nos "solas" da Reforma Protestante do século 16.
Hoje, a luz da Reforma já foi sensivelmente obscurecida. A conseqüência foi a palavra evangélico se tornar tão abrangente a ponto de perder o sentido. Enfrentamos o perigo de perder a unidade que levou séculos para ser alcançada. Por causa dessa crise e por causa do nosso amor a Cristo, seu evangelho e sua igreja, nós procuramos afirmar novamente nosso compromisso com as verdades centrais da reforma e do evangelicalismo histórico. Nós afirmamos essas verdades e não pelo seu papel em nossas tradições, mas porque cremos que são centrais para a Bíblia.

SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade
Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por vezes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se enfraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento.
Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja.
A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessidades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado.
A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência espiritual, é o teste da verdade.

Tese 1: Sola Scriptura
Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.
Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.

SOLO CHRISTUS: A Erosão da Fé Centrada em Cristo
À medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança duradoura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão.

Tese 2: Solo Christus
Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.
Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada.
SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho
A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.
A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.

Tese 3: Sola Gratia
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.
Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada.
SOLA FIDE: A Erosão do Artigo Primordial
A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação.
Muitas pessoas ligadas ao movimento do crescimento da igreja acreditam que um entendimento sociológico daqueles que vêm assistir aos cultos é tão importante para o êxito do evangelho como o é a verdade bíblica proclamada. Como resultado, as convicções teológicas freqüentemente desaparecem, divorciadas do trabalho do ministério. A orientação publicitária de marketing em muitas igrejas leva isso mais adiante, apegando a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando da cruz de Cristo a sua ofensa e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que oferecem sucesso às empresas seculares.
Embora possam crer na teologia da cruz, esses movimentos a verdade estão esvaziando-a de seu conteúdo. Não existe evangelho a não ser o da substituição de Cristo em nosso lugar, pela qual Deus lhe imputou o nosso pecado e nos imputou a sua justiça. Por ele Ter levado sobre si a punição de nossa culpa, nós agora andamos na sua graça como aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não há base para nossa aceitação diante de Deus a não ser na obra salvífica de Cristo; a base não é nosso patriotismo, devoção à igreja, ou probidade moral. O evangelho declara o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que nós podemos fazer para alcançar Deus.

Tese 4: Sola Fide
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.
Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima.
SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus
Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, o­nde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.
Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.

Tese 5: Soli Deo Gloria
Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.
Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.

Um Chamado ao Arrependimento e à Reforma
A fidelidade da igreja evangélica no passado contrasta fortemente com sua infidelidade no presente. No princípio deste mesmo século, as igrejas evangélicas sustentavam um empreendimento missionário admirável e edificaram muitas instituições religiosas para servir a causa da verdade bíblica e do reino de Cristo. Foi uma época em que o comportamento e as expectativas cristãs diferiam sensivelmente daquelas encontradas na cultura. Hoje raramente diferem. O mundo evangélico de hoje está perdendo sua fidelidade bíblica, sua bússola moral e seu zelo missionário.
Arrependamo-nos de nosso mundanismo. Fomos influenciados pelos "evangelhos" de nossa cultura secular, que não são evangelhos. Enfraquecemos a igreja pela nossa própria falta de arrependimento sério, tornamo-nos cegos aos pecados em nós mesmo que vemos tão claramente em outras pessoas, e é indesculpável nosso erro de não falar às pessoas adequadamente sobre a obra salvadora de Deus em Jesus Cristo.
Também apelamos sinceramente a outros evangélicos professos que se tenham desviado da Palavra de Deus nos assuntos discutidos nesta declaração. Incluímos aqueles que declaram haver esperança de vida eterna sem fé explícita em Jesus Cristo, os que asseveram que quem rejeita a Cristo nesta vida será aniquilado em lugar de suportar o juízo justo de Deus pelo sofrimento eterno e os que dizem que os evangélicos e os católicos romanos são um em Jesus Cristo, mesmo quando a doutrina bíblica da justificação não é crida.
A Aliança de Evangélicos Confessionais pede que todos os crentes dêem consideração à implementação desta declaração no culto, ministério, política, vida e evangelismo da igreja.
Em nome de Cristo. Amém.

Aliança de Evangélicos Confessionais.
Cambridge, Massachusetts
20 de abril de 1996.

domingo, 19 de junho de 2011

Livre-Arbítrio - Um Escravo: Charles Haddon Spurgeon



Um Sermão (Nº 52)
Pregado na Manhã de Domingo, 02 de Dezembro de 1855 pelo
Reverendo C. H. Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark– Inglaterra

Mas não quereis vir a mim para terdes vida” João 5:40 
Este texto é usado pelos arminianos como uma das suas grandes armas e freqüentemente descarregada com um barulho terrível contra os pobres cristãos chamados calvinistas. Nesta manhã eu pretendo apontar a arma, ou melhor, vira-la contra os inimigos, porque ela nunca pertenceu a eles: jamais foi fabricada na forja deles. Pelo contrario, este texto intenciona ensinar a doutrina exatamente oposta àquela que eles sustentam.
Geralmente quando o texto é empregado, ele é dividido desta forma: primeiro, o homem tem uma vontade. Segundo, ele é inteiramente livre. Terceiro, os homens tem que querer por sua própria vontade vir a Cristo, de outra maneira eles não serão salvos. Ora, nós não utilizaremos tais divisões, mas nos empenharemos em dar uma olhada no texto com mais precaução: e não porque existam nele as palavras "querer" ou "não querer", chegaremos à conclusão de que ele ensina a doutrina do livre-arbítrio.

LIVRE-ARBÍTRIO É SIMPLESMENTE RIDÍCULO
Já foi provado além de toda controvérsia que o livre-arbítrio é uma tolice. A liberdade não pode pertencer ao arbítrio como a ponderação não pode pertencer é eletricidade. Elas são coisas completamente diferentes Podemos crer em agente livre; porém o livre-arbítrio é simplesmente ridículo. É bem conhecido de todos que a vontade é dirigida pelo entendimento, movida por motivos, conduzida por outros componentes da alma e considerada como algo secundário.
Tanto a filosofia como a religião, descartam de uma vez a idéia de livre-arbítrio; e eu vou tão longe quanto Marinho Lutero, em sua forte afirmação, onde ele diz:"se algum homem, de alguma maneira, atribuir a salvação ao livre-arbítrio do homem - mesmo a íntima parte - nada sabe sobre a graça e não conheceu Jesus Cristo corretamente". Pode parecer uma declaração severa; todavia, aquele que em sua alma crê que o homem faz o seu próprio livre-arbítrio voltar-se para Deus, não pode ter sido instruído por Deus, pois esse é um dos primeiros princípios que nos é ensinado quando Deus começa Sua obra em nós: não temos nem vontade nem poder, posto que Ele concede ambos; porquanto Ele é "o Alfa e o Ômega" na salvação do homem.

Sumário
Neste sermão nossos quatro pontos principais serão - Primeiro, todo homem está morto porque o texto diz: "mas não quereis vir a mim para terdesvida". Segundo, Há vida em Jesus Cristo - "...não quereis vir a mim para terdes vida". Terceiro, Há vida em Cristo Jesus para todo aquele que vem recebê-la" (...) "não quereis vir a mim para terdes vida". Isso implica em que todos que vão, terão vida. Quarto e o sentido do texto é: ninguém por si mesmo jamais virá a Cristo, pois o texto diz: "...não quereis vir a mim para terdes vida". Portanto, longe de afirmar que os homens por suas próprias vontades fariam tal coisa, o versículo nega-o categoricamente e diz: "NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida". Ora, amados, estou quase pronto a exclamar: será que os defensores do livre-arbítrio tem tão pouco conhecimento a ponto de desafiar a doutrina da inspiração? Estão destituídos de senso todos aqueles que negam a doutrina da graça? Tem se afastado tanto de Deus que torcem isto para provar o livre-arbítrio onde o texto diz: "...NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida"?

NÃO HÁ VIDA NA MORTE
1. Primeiramente, então, nosso texto implica em que OS HOMENS POR NATUREZA ESTÃO MORTOS. Ninguém precisa ir à procura da vida se já tem vida em si mesmo. O texto fala muito fortemente quando declara: "...não quereis vir a mim para terdes vida". Apesar de não dizê-lo explicitamente, ele afirma, com efeito. que os homens precisam de uma vida que não tem em si mesmos. Meus ouvintes, nós todos estamos mortos, a não ser que tenhamos sido gerados para uma viva esperança.

MORTE LEGAL - CONDENAÇÃO
Todos nós estamos, por natureza, legalmente mortos: "no dia que dela comeres, certamente morrerás" disse Deus a Adão: embora ele não tenha morrido fisicamente naquele momento ele morreu legalmente: isto quer dizer que a morte foi decretada contra ele. Tão logo como no OId Bailey, o juiz veste a capa preta e pronuncia a sentença, o homem é considerado morto pela lei. Talvez possa passar um mês antes dele ser trazido ao patíbulo para sofrer a sentença da lei, no entanto, a lei o considera um homem morto. E lhe impossível fazer qualquer transação. Ele não pode herdar, nem legar seus bens: ele não é nada é um homem morto. O país, de maneira alguma, o considera como vivo. Há uma eleição - não lhe é pedido seu voto porque ele é considerado legalmente morto. Ele está trancado em sua cela de condenação e está morto. Ah, e vocês pecadores sem Deus, que nunca tiveram vida em Cristo, estão vivos nesta manhã, por adiamento, mas, será que não sabem que estão legalmente mortos: que Deus os considera como tais, que no dia que seu pai Adão comeu o fruto, e vocês próprios pecaram, Deus, o eterno Juiz, colocou sobre Si o gorro preto e os condenou? Vocês falam poderosamente de sua própria posição, bondade e moralidade: onde estão elas? As Escrituras dizem que vocês "já estão condenados". Não tem que esperar para serem condenados no dia do juízo final; ali será a execução da sentença estão condenados. No momento que pecaram, seus nomes foram escritos no livro negro da justiça: todos foram então sentenciados por Deus à morte, a não ser que tenham encontrado um substituto pelos seus pecados. na pessoa de Cristo.
O que pensariam se fossem à prisão e vissem o condenado sentado, rindo e feliz? Vocês diriam: "o homem é um tolo, pois ele está condenado e será executado: no entanto, quão alegre ele está". Ah, e quão tolo é o homem mundano que, enquanto a sentença está sendo registrada contra ele, vive em divertimento e alegria! Vocês pensam que a sentença de Deus é sem efeito? Pensam que seu pecado que está gravado com ponteiro de aço nas rochas para sempre é isento de horrores? Deus disse que vocês já estão condenados. Se pudessem tão somente sentir isto, o amargor encheria as suas doces taças de gozo: suas danças parariam. O riso se extinguiria com um suspiro, se lembrassem de que já estão condenados. Todos nós deveríamos chorar, se compreendêssemos seriamente que por natureza não temos vida aos olhos de Deus. Estamos realmente condenados: a morte está decretada contra nós, e somos considerados aos olhos de Deus agora tão mortos como se já estivéssemos lançados no inferno: somos condenados agora pelo pecado, embora ainda não estejamos sofrendo a penalidade, porém, ela está escrita contra nós. Por isso estamos legalmente mortos. Não podemos encontrar vida, a não ser que encontremos vida legal na pessoa de Cristo.

MORTE ESPIRITUAL - CADÁVER CAMINHANDO
Mas, além de estarmos legalmente mortos, estamos também espiritualmente mortos. Isso porque a sentença não somente foi lavrada no livro, mas também no coração e entrou na consciência, operou na alma, no julgamento, na imaginação e em tudo: "...porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás", não somente foi cumprido pela sentença decretada, mas por algo que aconteceu em Adão. Assim como num dado momento futuro, quando este corpo morrer, o sangue parará, o pulso cessará e a respiração não virá mais pelos pulmões, assim também no dia em que Adão comeu do fruto, sua alma morreu: sua imaginação perdeu seu poder de ascender às coisas celestiais e ver o céu, sua vontade perdeu para sempre seu poder de escolher aquilo que é bom, seu julgamento perdeu toda a sua habilidade de julgar entre o certo e o errado decidida e infalivelmente, ainda assim algo foi retido na consciência: sua memória tomou-se corrompida, propensa a reter coisas pecaminosas, e a deixar as coisas virtuosas deslizarem para longe todo poder que ele tinha cessou quanto a sua vitalidade moral. A bondade era a vitalidade do seu poder - isso se foi. Virtude, santidade, integridade: estas eram a vida do homem, e quando elas se foram o homem tornou-se morto. E agora, todo homem, no que concerne as coisas espirituais, "está morto em delitos e pecados". A alma não esta menos morta num homem carnal do que o corpo quando depositado no túmulo: ela esta real e positivamente morta - não se trata de uma metáfora, pois Paulo não fala por metáforas quando afirma: "Ele vos vivificou estando vós mortos nos vossos delitos e pecados".
Mas, meus ouvintes, oxalá eu pudesse pregar tudo aos seus corações a respeito deste assunto. Foi suficientemente ruim quando eu descrevi a morte como tendo sido decretada: porém, agora eu falo disso, como tendo de fato acontecido nos seus corações. Vocês não são o que eram antes: não são o que eram em Adão, nem o que foram gerados. O homem foi criado puro e santo. Vocês não são as criaturas perfeitas das quais alguns se gloriam, todos são totalmente caídos, todos se desviaram do caminho, tomando-se corruptos e sujos. Oh, não ouçam o canto da sereia daqueles que falam da dignidade moral e do elevado estado de vocês no tocante a salvação. Vocês não são perfeitos: a palavra tão forte - "ruína" - está escrito em seus corações: e a morte está selada em seus espíritos.
Não imagine, ó homem moral. que poderá ficar de pé diante de Deus em sua moralidade, pois você não é mais do que uma carcaça embalsamada em legalismo, um defunto enfeitado em finas roupas, porém ainda corrupto na presença de Deus. E não pense, o possuidor de religião natural, que poderá pelo seu poder e forca fazer-se aceitável a Deus. Ó homem, você esta morto e poderá vestir a morte tão gloriosamente como quiser porém, ainda assim, isso seria uma farsa solene. Ali está a rainha Cleópatra - coloque sobre a sua cabeça a coroa vista-a com mantos reais, deixe-a sentar com pompa: mas, que calafrio você sente quando passa por ela. Hoje ela é bela, até na sua morte - mas quão terrível e ficar em pé junto desse corpo, mesmo que seja de uma rainha morta, tão celebre pela sua majestosa beleza! Portanto, você poderá ser glorioso em sua beleza, agradável, maravilhoso e bondoso! Você coloca a coroa de honestidade sobre a sua cabeça. Usando todas as vestes de honra, mas a não ser que Deus o tenha vivificado, o homem, a não ser que o Espírito tenha tratado com a sua alma, você é tão detestável aos olhos de Deus como o corpo frio lhe é repugnante. Você não escolheria viver com um morto assentado a sua mesa. E Deus não tem prazer em que você esteja diante de seus olhos. Ele Se ira com você todos os dias, pois esta em pecado - está morto. Oh. creia nisso, leve-o a serio! Aproprie-se disso, pois é bem verdade que está morto, tanto espiritualmente como legalmente.

MORTE ETERNA NO INFERNO
O terceiro tipo de morte é a consumação dos outros dois. É a morte eterna. É a execução da sentença legal; e a consumação da morte espiritual. A morte eterna e a morte da alma; isto acontece depois da morte física, após a alma ter saído do corpo. Se a morte legal e terrível e por causa das suas conseqüências; e se a morte espiritual e horrível, e por causa daquilo que acontecerá depois. As duas mortes da qual falamos são as raízes, mas a morte que advirá é a arvore em plena frutificação!
Oh, se eu tivesse palavras para descrever a você neste momento o que é a morte eterna. A alma compareceu diante do seu Criador; o livro foi aberto; a sentença foi declarada: " apartai-vos malditos". O universo foi sacudido, e tomou as próprias galáxias obscurecidas com a desaprovação do Criador; a alma se foi as profundezas onde habitara com outras na morte eterna. Oh quão terrível e a sua posição agora. Seu leito é um leito de chamas: as visões que ela tem são horrendas horripilam-na; os sons que ouve são gritos, lamentações choros, e grunhidos; tudo que o seu corpo conhece é a imposição de dores lancinantes! Ele tem o inexprimível infortúnio da miséria não mitigada. A alma olha para baixo com medo e pavor; o remorso toma posse dela. Ela olha para sua direita. e as paredes inflexíveis da ruína a mantém dentro dos limites da tortura. Olha para sua esquerda, e ali o baluarte de fogo ardente impede a escalada de qualquer imaginado escape. Olha para dentro de si e ali procura por consolação, mas um verme torturante já penetrou nela. Ela olha em volta não tem amigos que a ajudem, nem consoladores, e sim atormentadores em abundância. Não conhece a esperança da libertação; já ouviu o eterno ferrolho do destino fechando a porta da terrível prisão, e viu Deus tomar a chave e jogá-la nas profundezas da eternidade para nunca mais ser achada. Sem esperança, desconhece escape, não conjectura libertação; suspira pelo fim, mas a morte é por demais um adversário para ali estar; deseja ardentemente que a não existência a possa tragar, mas esta morte eterna é pior do que o aniquilamento. Anseia pelo extermínio como trabalhador pelo seu dia de descanso; deseja profundamente que possa ser engolida pelo nada, assim como o escravo da galé deseja sua liberdade qual nunca chega. Está eternamente morta. Quando a eternidade tiver dado incontáveis voltas a alma perdida ainda estará morta. "Para todo o sempre" não conhecerá fim; a eternidade não pode ser soletrada a não ser na eternidade. No entanto, a alma vê assento sobre a sua cabeça; és maldita para sempre". Ela ouve gritos que serio perpétuos; as chamas que são inextinguíveis; conhece dores que não terão alivio; ouve uma sentença que não ruge como um trovão da terra que logo cessa porém, continua sempre e sempre, retinindo os ecos da eternidade - fazendo milhares de anos tremer outra vez com o terrível estrondo do seu pavoroso ruído; "Apartai! Apartai! Apartai malditos''! Isto é na verdade a morte eterna.

VIDA EM CRISTO
2. Em segundo lugar HÁ VIDA EM CRISTO JESUS, pois Ele diz: "mas não quereis vir a mim para terdes vida". Não há vida em Deus pai para o pecador; não há vida em Deus Espírito para o pecador longe de Jesus. A vida do pecador está em Cristo. Se vocês tomarem o Pai a parte do Filho, apesar de amar Seus eleitos e decretar que eles viverão, no entanto, a vida só está em seu Filho. Se tomarem Deus Espírito a parte de Jesus Cristo, apesar de ser o Espírito que nos dá vida, espiritual, contudo a vida está em Cristo, a vida esta no Filho. Não nos atrevemos, não podemos requerer vida espiritual em primeiro lugar, nem de Deus Pai, ou de Deus Espírito Santo. A primeira coisa que somos levados a fazer quando Deus nos tira do Egito e comer a Páscoa - a primeiríssima coisa.
Os primeiros meios pelos quais recebemos vida consiste em nos alimentar da carne e do sangue do Filho de Deus: vivendo nEle, confiando nEle, acreditando na Sua graça e poder.
O pensamento que estamos desenvolvendo e: há vida em Cristo Jesus. Quero mostrar-lhes que há três tipos de vida em Cristo, assim como há três tipos de morte em conseqüência do pecado.

VIDA LEGAL - SEM CONDENAÇÃO
Primeiro existe vida legal em Cristo. Assim como todo homem por natureza, considerado em Adão, teve uma sentença de condenação que passou para ele no momento em que Adão pecou e, mais especificamente, no momento de sua própria transgressão, igualmente se formos crentes e confiarmos em Cristo, houve uma sentença legal de absolvição atribuída a nós através do que Jesus Cristo fez. Ó pecador condenado, você pode estar sentado aqui hoje tão condenado como o prisioneiro em Newgate (prisão na Inglaterra) mas antes deste dia terminar poder estar tão livre de culpa como os anjos lá do alto. Há uma tal coisa como uma vida legal em Cristo, e bendito seja Deus, alguns de nós a desfrutamos. Sabemos que os nossos pecados são perdoados porque Cristo sofreu o castigo por eles. Sabemos que nunca seremos punidos porque Cristo sofreu em nosso lugar.
A Páscoa foi sacrificada a nosso favor: os umbrais e a verga das portas foram aspergidos, e o anjo destruidor nunca poderá nos tocar. Para nós não haverá inferno; suas chamas terríveis não nos alcançarão. Não importa que o Tofete tenha sido preparado desde há muito tempo, nem que sua pilha seja de madeira e haja muita fumaça, nunca iremos para lá - Cristo morreu por nós e em nosso lugar. Ainda que hajam horríveis tormentos, ou mesmo uma sentença que produza horrendas repercussões fragorosas, no entanto, nem tormento nem prisões, nem trovões são para nós! Em Cristo Jesus somos libertos agora. "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que andam não segundo a carne, mas, segundo o Espirito" (Rom. 8:1).
Pecador, você se sente legalmente condenado neste momento? Sente isso? Então, deixe-me dizer-lhe que a fé em Cristo lhe dará o conhecimento de sua absolvição legal. Meu amigo, não e nenhuma fantasia o fato de estarmos condenados por nossos pecados, é uma realidade. Portanto, tampouco é fantasia que fomos absolvidos de nossos pecados, é também uma realidade. Um homem prestes a ser enforcado, se recebesse pleno perdão sentiria isso como uma grande realidade. Ele dirá: "eu recebi total perdão, agora não posso ser tocado". É assim mesmo que eu me sinto.
"Agora livre do pecado eu ando em liberdade,
O sangue do Salvador e minha completa absolvição,
Aos Seus queridos pés eu me deito,
Um pecador salvo, minha homenagem presto".
Irmãos, nós ganhamos vida legal em Cristo, e tal vida não podemos perder. A sentença era contra nós no passado - agora tudo mudou. Esta escrito: "portanto, AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ PARA OS QUE ESTÃO EM CRISTO JESUS", e esse agora valerá para mim daqui a muitos anos, como o esta valendo hoje. Em qualquer tempo que estivermos vivendo, ainda estará escrito: "portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus".

VIDA ESPIRITUAL - DEFUNTO VIVIFICADO
Então, em segundo lugar, há vida espiritual em Cristo Jesus. Visto que o homem está espiritualmente morto, Deus tem vida espiritual para ele, pois não há nenhuma necessidade que não possa ser suprida por Jesus; não há vazio no coração que Cristo não possa encher: não há um ermo que Ele não possa povoar, não há deserto que Ele não possa fazer florescer como a rosa. Ó pecadores mortos, espiritualmente mortos. há vida em Cristo Jesus, pois nós temos visto - sim, estes olhos viram - os mortos viverem de novo: nós conhecemos o homem cuja visão era carnal, cujas concupiscências eram poderosas, cujas paixões eram fortes, e que de repente, por um irresistível poder do céu. consagrou-se a Cristo, e tornou-se um filho de Deus. Sabemos que há vida em Cristo Jesus, vida de ordem espiritual; sim, mas nós mesmos, em nossas próprias pessoas, temos sentido que há uma vida espiritual. Bem que podemos nos lembrar quando nos sentamos na casa de oração, tão mortos como os bancos nos quais estávamos sentados. Havíamos ouvido por muito tempo o som do evangelho, porém, nenhum efeito se seguiu, quando de repente, como se os nossos ouvidos tivessem sido abertos pelos dedos de um poderoso anjo, um som entrou em nossos corações. Pensamos ter ouvido Jesus dizer: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mat. 11:15). Um poder irresistível tocou nossos corações e espremeu deles uma oração. Nunca fizemos uma oração assim antes. Nós clamamos" Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" (Lc. 18:13).
Alguns de nós sentimos a mão de Deus nos apertando durante meses, como se tivéssemos sido apanhados num torno, e as nossas almas sangraram gotas de angústia. Essa miséria era um sinal de vida que se iniciava. Quando as pessoas estão se afogando não sentem tanto a dor como quando estão sendo restauradas. Oh, podemos nos lembrar de quando recebemos a nossa vida espiritual, tão facilmente como pode um homem que fosse ressurrecto do túmulo.
Podemos supor que Lázaro se lembrava da sua ressurreição, porem, não de todas as circunstancias dela. Portanto, apesar de termos nos esquecido de muitos detalhes, podemos nos lembrar de quando nos entregamos a Cristo. Podemos dizer a todo pecador, mesmo estando morto, que há vida em Cristo Jesus, ainda que ele esteja podre e corrupto em seu túmulo espiritual. Aquele que ressuscitou a Lázaro, também nos ressuscitou; e Ele pode dizer igualmente a você: "Lázaro, saia para fora''.

VIDA ETERNA - NUNCA PERDIDO
Em terceiro lugar, há vida eterna em Cristo Jesus. Meus amigos, se a morte eterna e terrível, a vida espiritual e abençoada; pois Ele disse, "Onde Eu estiver aí o meu servo estará"(João 12:26). "Pai, desejo que onde eu estiver também estejam comigo aqueles que me tens dado, para que vejam a minha glória" (João 17:24). "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão". (João 10:28). Ora, qualquer arminiano que pregasse sobre esse texto precisaria de lábios de borracha para esticar a sua boca, pois tenho certeza que ele não poderia falar toda a verdade sem se enrolar de um modo muito misterioso. Vida eterna - não uma vida que eles vão perder, mas vida eterna. Se eu perdi a vida em Adão, eu a ganhei em Cristo; se em Adão me perdi para sempre, em Cristo Jesus me encontro para sempre. Vida eterna! Oh, bendito pensamento! Nossos olhos reluzirão com gozo e nossas almas arderão em êxtase ao pensar que as nossas almas vão viver em alegria e gozo. Apaga seu olho, ó sol! - porém os meus olhos" verão o Rei na Sua formosura" quando esse olho solar nunca mais fizer sorrir a terra verde. E lua, toma-se em sangue! - porém o meu sangue jamais se tornará em nada; este meu espírito ainda existira quando você terá deixado de existir. E você grande mundo! - poderá desvanecer assim como a espuma desaparece de sobre a onda que a suporta, porém eu terei a vida eterna. Ó tempo! - você poderá ver montanhas gigantescas mortas ou escondidas em suas covas; poderá ver as estrelas como figos maduros caindo da árvore; mas nunca, jamais verá o meu espirito morto.

DEUS SALVA A TODOS OS QUE VÊM
3. Isto nos traz ao terceiro ponto: A VIDA ETERNA É DADA A TODOS OS QUE VÊM EM SUA BUSCA. Nunca um homem veio a Cristo buscar vida eterna, legal e espiritual, que de certo modo não a tivesse recebido, e foi lhe manifestado de que a tinha recebido logo após ter vindo. Vamos considerar um ou dois textos. "Portanto pode também salvar perfeitamente os que por Ele se achegam a Deus" (Hb. 7:25). Todo homem que se achega a Cristo, verá que Ele é capaz de salvá-lo e, não apenas capaz de salvá-lo um pouco, libertá-lo de um pequeno pecado, livrá-lo de uma pequena tribulação, carrega-lo um pouco e depois deixá-lo cair - e sim capaz de salvá-lo até a máxima extensão do seu pecado, e de suas tribulações, até ao mais profundo das suas tristezas e ao extremo da sua existência. Cristo diz a todo o que vem a Ele: "Venha, pobre pecador, não precisa perguntar se tenho poder para salvar. Eu não perguntarei quão longe foi em seu pecado; Eu posso salvá-lo completa e perfeitamente".

SOMENTE OS ESCOLHIDOS VIRÃO
Agora vejamos outros textos: "Aquele que vem a mim (notem que as promessas são quase todas aos que vêm) de modo nenhum o lançarei fora"' (João 6:37). Todo homem que vem encontrará a porta da casa de Cristo aberta - e a porta do Seu coração também. Todo homem que vem - eu digo isto no mais amplo sentido - descobrirá que Cristo tem misericórdia dele. O maior absurdo do mundo e querer um evangelho mais amplo do que aquele registrado nas Escrituras. Eu proclamo que todo homem que crê será salvo - que todo homem que vem encontrara misericórdia. As pessoas me perguntam: mas, suponha que um homem venha sem ter sido escolhido, ele seria salvo? Você está supondo um absurdo, e eu não vou lhe dar uma resposta. Se um homem não for escolhido ele nunca virá. Quando ele vem é uma prova segura de que foi escolhido. Diz outro: "Suponha que alguém vá a Cristo que não tenha sido chamado pelo Espirito". Pare, meu amigo, essa é uma suposição que você não tem o direito de fazer, pois tal coisa não pode acontecer: você só diz isso para me enredar, mas não conseguirá isso. Eu digo, todo homem que vem a Cristo será salvo. Eu posso dizer isso como um calvinista, ou como um hiper-calvinista com toda a clareza possível. Não tenho evangelho que exceda em estreiteza ao que você tem só que o meu evangelho está alicerçado sobre um fundamento sólido, ao passo que o seu está construído somente sobre ardia e podridão. Todo homem que vem a Cristo será salvo, pois, homem nenhum virá a Ele "se o Pai não o trouxer". No entanto, diz alguém: "Suponha que o mundo todo viesse, Cristo o receberia?" Certamente, se todos viessem; mas eles não virão Eu digo, todos os que vem - sim, mesmo que eles fossem tão maus quanto os demônios, ainda assim Cristo os receberia; se eles tivessem todos os pecados e imundícies derramados nos seus corações, como dentro de um esgoto comum para o mundo todo, Cristo os receberia.

EXPIAÇÃO UNIVERSAL, UMA MENTIRA
Há quem argumente: "Eu quero saber sobre o restante das pessoas. Posso sair e dizer-lhes: Jesus Cristo morreu por cada um de vocês? Posso dizer que há vida para cada um de vocês?". Não. Não poderá. Você poderá dizer que há vida para cada homem que vem; contudo, se disser que há vida para aqueles que não crêem, então, profere uma mentira perigosa. Se você lhes disser que Jesus Cristo foi punido pelos seus pecados e assim mesmo se perderão, você fala uma falsidade deliberada. Pensar que Deus pode punir a Cristo, e depois punir a eles - eu admiro do seu atrevimento em dizer isso! Um homem uma vez estava pregando e afirmou que havia harpas e coroas no céu para toda a sua congregação; e depois terminou de uma maneira muito solene: " Meus queridos amigos, muitos para quem estas coisas estão preparadas não chegarão lá ''. De fato, a sua pregação foi uma coisa tão lamentável que era para fazer chorar mas eu lhes digo por quem ele deveria ter chorado - deveria ter chorado pelos anjos do céu e por todos os santos, pois isso estragaria completamente o céu para eles.
Ouçam, meus irmãos, quando vocês se reunirem no Natal, se perderam seu irmão Davi, e o seu lugar está vazio, vocês dizem: "Bem, nós sempre desfrutamos do Natal, mas agora há um vazio - pobre Davi esta morto e sepultado!" Pensem nos anjos dizendo: "Ah, este é um céu maravilhoso, mas não gostamos de ver todas estas coroas aqui com teias de aranha! Não podemos suportar essa rua desabitada nem podemos olhar para esses tronos vazios"! E então, pobrezinhos, eles poderiam começar a falar uns com os outros, e dizer: "Nenhum de nós está a salvo aqui, pois a promessa foi - " Eu dou as minhas ovelhas a vida eterna", e há muitas delas no inferno, as quais Deus deu vida eterna também; há um número delas pelas quais Cristo derramou Seu sangue, queimando no abismo, e se elas podem ser mandadas para lá, Ele também pode nos mandar. Se não podemos confiar numa promessa, tampouco podemos confiar noutra". Portanto, o céu perderia o seu fundamento e cairia. Acabem com tal evangelho sem sentido! Deus nos da um evangelho seguro e sólido, construído sobre as promessas e relacionamentos da aliança, com propósitos eternos e cumprimentos seguros.

NENHUM HOMEM DESEJA VIR
4. Isto nos traz ao quarto ponto. POR NATUREZA, NENHUM HOMEM QUER VIR A CRISTO, pois o texto diz: "Não quereis vir a mim para terdes vida". Eu afirmo sob a autoridade das Escrituras que não querem vir a Cristo para terem vida. Eu lhes digo, poderia pregar a vocês a vida toda e tomar emprestado a eloquência de Demóstenes ou de Cícero, mas vocês na desejariam vir a Cristo. Poderia lhes implorar de joelhos, com lágrimas nos meus olhos, e mostrar os horrores do inferno e o gozo do céu, como também expor a sua própria condição de perdido e a suficiência de Cristo, porém nenhum de vocês viria a Cristo por sua própria vontade, a não ser que o Espírito de Cristo o atraísse. E verdade que todos os homens, em sua condição natural, não virão Cristo.
Parece que estou ouvindo outro destes faladores perguntando: "Mas, eles não poderiam vir se quisessem"? Meu amigo, vou lhe responder numa outra ocasião. Essa não é a questão neste momento. Eu estou falando sobre eles quererem, não sobre eles poderem. Você pode notar que quando se fala de livre-arbítrio, o pobre arminiano em dois segundos começa a falar de poder, e mistura dois assuntos que deveriam ser mantidos separados. Nós não trataremos de dois assuntos de uma só vez, pois nos recusamos a lutar com dois ao mesmo tempo. Em outra oportunidade pregaremos sobre este texto: "Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer". Entretanto, é só sobre a vontade que estamos falando agora, é certo que os homens não virão a Cristo para que tenham vida.
Poderíamos provar isso com muitos textos das Escrituras, porém usaremos uma parábola. Vocês se lembram da parábola onde um certo rei deu uma festa para seu filho, e convidou muitos a festa; os bois e os cevados foram mortos, e ele enviou seus mensageiros a chamar muitos para a ceia. Eles foram a festa? Não, não foram. Todos eles, a uma só voz, começaram a se desculpar. Um disse que havia se casado, portanto não poderia vir. E o que impediria que ele trouxesse a esposa consigo? Outro comprou uma junta de bois, e foi experimentá-los; mas a festa foi a noite, e ele não poderia experimentá-los no escuro. Outro comprou um pedaço de terra e queria vê-la; mas eu não creio que ele fosse vê-la com uma lanterna. Assim, todos apresentaram desculpas e não quiseram vir. Bem, o rei estava determinado a realizar a festa; portanto, ele disse: "Vai às ruas e becos e convida-os - espere! não convide - obriga-os a entrar", pois mesmo os pobres das ruas nunca teriam vindo a não ser que fossem compelidos.
Examinemos outra parábola. Um certo homem tinha uma vinha; no tempo determinado enviou um dos seus servos para receber o que lhe cabia do aforamento. O que fizeram com ele? Espancaram aquele servo. Ele enviou outro, e o apedrejaram. Enviou ainda outro, e o mataram. E por último ele disse: " Eu vou enviar-lhes o meu filho, a ele terão respeito". Mas o que foi que fizeram? Disseram: " Este e o herdeiro: vinde, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança". E assim fizeram. E o mesmo com todos os homens, por causa da sua natureza. O Filho de Deus veio: no entanto, os homens O rejeitaram." Não quereis vir a Mim para terdes vida".

A QUEDA - ATÉ ONDE?
Levaria muito tempo para mencionarmos outras provas das Escrituras. Vamos, no entanto, nos referir à grande doutrina da Queda. Qualquer pessoa que acredita que a vontade do homem é inteiramente livre, e que pode ser salva por meio dela, não acredita na Queda. Como, às vezes, tenho lhes dito: poucos pregadores acreditam plenamente na doutrina da Queda, ou então apenas acreditam que Adão, quando caiu, quebrou seu dedo mindinho, e não seu pescoço, arruinando assim a sua raça. Ora, amados, a Queda quebrou o homem completamente. Não deixou nenhuma capacidade inalterada; todas foram despedaçadas, degradadas e manchadas. Como um poderoso templo, os pilares podem estar ali, as colunas, até o pilar principal, mas, todos eles foram quebrados, ainda que alguns retenham suas formas e posições. Às vezes a consciência do homem retam muito a sua ternura - no entanto, esta caída. A vontade também não está isenta. Embora seja o maioral de Mansoul - conforme Bunyan o chama - o maioral erra. O senhor vontade - voluntarioso - estava continuamente errando.
A natureza caída que vocês tem foi colocada fora de ordem; sua vontade, entre outras coisas, afastou-se completamente de Deus. Eu lhes direi que a melhor prova disso: é o grande fato de que nunca encontraram um cristão, em toda a sua vida, que dissesse que ele veio a Cristo, sem que antes Cristo tivesse vindo a ele.

ORAÇÕES LIVRE-ARBÍTRIO - NÃO!
Vocês tem ouvido muitos sermões arminianos, eu ouso dizer, mas nunca ouviram uma oração arminiana - pois os santos em oração se parecem iguais em palavra, ação e mente. Um arminiano de joelhos orará desesperadamente como um calvinista. Ele não pode orar a respeito do livre-arbítrio: não há lugar para isso. Imagine-o orando: "Senhor, eu Te agradeço que não sou como esses pobres calvinistas presunçosos. Senhor, eu nasci com um glorioso livre-arbítrio: eu nasci com poder pelo qual posso me voltar para Ti por conta própria; tenho melhorado minha graça. Se todos tivessem feito o mesmo que eu fiz com a Tua graça, poderiam todos ter sido salvos. Senhor, eu sei que Tu não nos fazes espiritualmente propensos se nós mesmos não queremos. Tu dás graça a todos; alguns não a melhoram, mas, eu sim. Haverá muitos que irão para o inferno, tantos quantos foram comprados pelo sangue de Cristo como eu fui; eles tinham tanto do Espírito Santo quanto me foi dado tiveram uma boa chance, e foram tão abençoados como eu sou. Não foi a Tua graça que nos diferenciou; eu sei que ela fez muito, mas eu cheguei ao ponto desejado; eu usei o que me foi dado e os outros não - essa e a diferença entre eu e eles".
Essa é uma oração para o diabo, pois ninguém ofereceria tal oração. Ah, quando eles estão pregando e falando vagarosamente poderá haver doutrina errada: mas quando oram, a verdade escapa, eles não podem evitá-la. Se um homem fala muito devagar, ele poderá falar de modo refinado, porém, quando ele começa a falar depressa, o velho sotaque regional escapa.
E lhes pergunto: alguma vez conheceram um cristão que dissesse," Eu vim a Cristo sem o poder do Espírito"? Se alguma vez encontraram tal homem, não precisam ter a menor hesitação em dizer: "Meu querido amigo, eu realmente admito isso - e acredito também que você se afastou dEle sem o poder do Espírito, que está em fel de amargura e no laço da iniquidade".
Será que eu ouço um cristão dizendo: "Eu achei a Jesus antes que Ele me achasse; eu fui ao Espírito, e Ele não veio a mim"? Não, amados, somos obrigados; cada um de nós a colocar as mãos sobre os nossos corações e dizer:
"A graça ensinou minha alma a orar,
E fez meus olhos transbordar,
Foi a graça que me guardou até este dia,
E não me deixam escapar"
Há alguém aqui - ao menos um - homem ou mulher, jovem ou velho, que possa dizer: "Eu procurei a Deus antes que Ele me procurasse"? Não, mesmo você que tende para o arminianismo cantara:
" Oh sim! eu amo a Deus
Porque Ele me amou primeiro".
Então, mais uma pergunta. Porventura não descobrimos que, mesmo após termos vindo a Cristo, a nossa alma não está livre, e sim, está guardada por Cristo? Não descobrimos que até mesmo agora, há ocasiões quando o querer não está presente? Há uma lei em nossos membros guerreando contra a lei das nossa s mentes. Ora, se esses que estão espiritualmente vivos sentem que a sua vontade esta contraria a de Deus, o que dizer do homem que esta morto em delitos e pecados? Seria um absurdo maior colocar os dois no mesmo nível; e seria ainda mais absurdo fazer os mortos precederem os vivos. Não, o texto esta certo, a experiência o imprimiu em nossos corações: " Não quereis vir a mim para terdes vida".

POR QUE NINGUÉM VEM
Agora devemos dizer-lhes os motivos pelos quais os homens não vem a Cristo. O primeiro e: porque nenhum homem por natureza pensa que ele precisa de Cristo. Por natureza ele concebe que não precisa de Cristo; pensa que possui um manto de justiça própria, que está bem vestido, que não está nu, que não precisa do sangue de Cristo para lavá-lo, que não está preto ou vermelho e que não precisa da graça para purificá-lo. Nenhum homem conhece a sua necessidade antes que Deus a mostre a ele; e até que o Espírito Santo lhe revele a necessidade de perdão, nenhum homem buscará o perdão. Eu posso pregar Cristo para sempre, mas, a não ser que alguém sinta que quer a Cristo, nunca virá a Ele. Um farmacêutico pode ter uma boa farmácia, mas ninguém comprará seus remédios até que sinta que precisa deles.
O motivo seguinte é: porque os homens gostam do modo pelo qual Cristo os salva. Um diz: " Eu não gosto porque Ele me torna santo; eu não posso beber ou blasfemar, se Ele me salvar". Outro diz: " Isto requer que eu seja tão exato e rígido, e eu gosto de um pouco mais de licença". Outro não gosta porque o" portão do céu" não é o suficiente alto para a sua cabeça, e ele não gosta de se agachar. Este é o motivo principal pelo qual vocês não virão a Cristo, porque não podem chegar a Ele com as suas cabeças firmemente levantadas no ar: pois Cristo os faz agacharem quando vocês vem. Outro não gosta que a salvação seja pela graça do começo ao fim. "Oh", ele diz: "se eu pudesse ter só um pouco de honra". Mas, quando ele ouve que tudo é Cristo. Cristo ou nada, um Cristo inteiro ou nada de Cristo, ele diz: " Eu não virei", vira-se então e vai embora. Ah, pecadores orgulhosos, vocês não virão a Cristo porque não conhecem nada sobre Ele. E esse é o terceiro motivo. Os homens não conhecem Seu valor, pois se o conhecessem, viriam para Ele. Porque os marinheiros não vieram para a América antes de Colombo? Porque não acreditavam que a América existia. Colombo tinha fé: portanto ele foi. Aquele que tem fé em Cristo vai a Ele. Todavia, vocês não conhecem a Jesus; muitos de vocês não viram Seu maravilhoso rosto; nunca viram o quanto Seu sangue é apropriado para um pecador, quão grande é a Sua expiação, e como Seus méritos são todos suficientes. Portanto" vocês não virão a Ele".

SEM DESCULPA
Oh, meus ouvintes, meu último pensamento e deveras solene. Já preguei que vocês não virão. Mas, alguns vão dizer: " É por causa dos nossos pecados que não estamos vindo". É isso mesmo. Vocês não vêm nem podem vir porque suas vontades são pecaminosas. Alguns pensam que" costura-mos almofadas para todas as cavas" quando pregamos esta doutrina, mas não o fazemos. Não vemos isto como sendo parte da natureza original do homem, porém, como pertencente à natureza decaída. É o pecado que os trouxe a esta condição, devido a qual não virão. Se não tivessem caído, viriam a Cristo no exato momento em que Ele fosse anunciado a vocês, mas não vêm por causa dos seus pecados e delitos. As pessoas se desculpam porque têm corações maus. Essa é a desculpa mais esfarrapada do mundo. Acaso o roubo e a ladroeira não provêm de um mau coração? Suponha que um ladrão dissesse ao juiz: " Eu não pude evitá-lo, eu tinha um mau coração". O que diria o juiz?" Patife! se seu coração é mau então farei a sentença mais pesada, pois de fato você é um vilão. Sua desculpa não e nada". O Todo-Poderoso vai rir deles, e os terá em escárnio. Nós não pregamos esta doutrina para desculpá-los, e sim para torná-los humildes. Possuir uma má natureza é tanto minha culpa como minha terrível calamidade.
É um pecado que será cobrado do homem. Quando eles não vêm a Cristo é o pecado que os mantém afastados. Aquele que não prega isso, duvido que seja fiel a Deus e à sua própria consciência. Vai então para casa, meu amigo, com este pensamento: " Eu sou por natureza tão perverso que não virei a Cristo, e essa perversidade da minha natureza é o meu pecado. Eu mereço ser lançado ao inferno por isso". E se este pensamento não humilhar, o Espírito usando o mesmo, nada poderá fazê-lo. Na pregação de hoje eu não exaltei a natureza humana, porém rebaixei-a. Deus nos humilhe a todos. Amém!

NOTA CONCLUSIVA DO PUBLICADOR [Editora PES]
Desde que este sermão foi pregado por Spurgeon no início do seu ministério (02 de dezembro de 1855 na Capela de New Park Street, Londres), alguns oponentes da doutrina da graça soberana têm tentado ensinar que posteriormente Spurgeon mudou seu ponto de vista sobre aquilo que foi exposto em " Livre-Arbítrio - Um Escravo". Isto é simplesmente um absurdo, como o confirmam as seguintes breves citações (que poderiam ser multiplicadas muitas vezes), extraídas do último volume dos seus sermões, os quais ele editou pessoalmente em 1891, no Metropolitan Tabernacle Pulpit.
"Você não possui um vontade imparcial, ou inclinada para aquilo que é bom; você escolheu o mal e continua a escolhê-lo..."
"Durante o tempo que quiser, você poderá exortar um homem cego a enxergar, porém ele não enxergará. O quanto quiser, você poderá exortar um homem morto a viver, porém ele não viverá somente através de sua exortação. Algo mais é necessário" (pp. 341-342 )."
"A intenção de Deus era que Lídia fosse salva. No entanto, você sabe que nenhuma mulher foi salva contra sua vontade. Deus nos faz dispostos no dia do Seu poder, e a Sua graça não viola a vontade humana, mas triunfa docemente sobre ela. Nunca haverá alguém arrastado para o céu pelas orelhas: saiba disso. Nós iremos para lá de coração e porque desejamos" (p. 485).

Fonte: Monergismo

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Devocionais Spurgeon- A Minha Graça te Basta


A Minha Graça te Basta
por
Charles Haddon Spurgeon
“A minha graça te basta” (2Coríntios 12:9)
Se nenhum dos santos de Deus fosse humilhado e sujeito às provações, não
conheceríamos tão bem nem metade das consolações da graça divina. Quando
encontramos um andarilho que não tem onde reclinar a cabeça, mas que pode
dizer: "mesmo assim confiarei", ou quando vemos um pobre necessitado de pão e
água que ainda se gloria em Jesus; quando vemos uma viúva enlutada assolada
por aflições e ainda tendo fé em Cristo, oh! que honra isto reflete no evangelho.
A graça de Deus é exemplificada e engrandecida na pobreza e nas provações dos
crentes. Os santos resistem a todo desalento, crendo que todas as coisas
cooperam para o seu bem, e que, entre todas as coisas aparentemente ruins
afinal florescerá uma verdadeira bênção - que, ou seu Deus operará um rápido
livramento, ou, com toda certeza, os sustentará na provação, enquanto assim
Lhe aprouver. Esta paciência dos santos prova o poder da graça divina. Há um
farol em alto mar: a noite está calma - não posso dizer se sua estrutura é sólida
ou não; a tempestade precisa desabar sobre ele, e só assim saberei se continuará
em pé. Assim é com a obra do Espírito Santo: se ela não fosse cercada por águas
tempestuosas em muitas ocasiões, não saberíamos que é forte e verdadeira; se
os ventos não soprassem sobre ela, não saberíamos o quanto é firme e segura. As
obras-primas de Deus são aqueles homens que permanecem firmes, inabaláveis,
em meio às dificuldades:
"Calmo em meio ao choro transtornado
Confiante na vitória."
Aquele quer quer glorificar seu Deus deve ter em conta o enfrentar muitas
provações. Nenhum homem pode ser reconhecido diante do Senhor a menos que
suas lutas sejam muitas. Se, então, o teu for um caminho atribulado, regozija-te
nele, pois mostrarás o teu melhor diante da toda-suficiente graça de Deus.
Quanto a Ele falhar contigo, jamais penses nisto - odeia este pensamento. O Deus
que foi suficiente até agora, o será até o fim.
Fonte: Morning and Evening (Devocional vespertina do dia 04 de Março)

A Cruz e o Eu - Arthur W. Pink


Imagem cedida por: http://coisasdemim.blogspot.com/2011/03/cruz-morte-ou-vida.html

Antes de abordarmos o tema deste versículo, desejamos fazer algumas considerações sobre os seus termos. “Se alguém” — o termo utilizado refere-se a todos os que desejam unir-se ao grupo dos seguidores de Cristo e alistar-se sob a bandeira dEle. “Se alguém quer” — o grego é muito enfático, significando não somente a anuência da vontade, mas também o propósito completo do coração, uma resolução determinada. “Vir após mim” — como um servo sujeito a seu Senhor, um aluno, ao seu Mestre, um soldado, ao seu Capitão. “Negue” — o vocábulo grego significa negue-se completamente. Negue-se a si mesmo — a sua natureza pecaminosa e corrupta. “Tome” — não quer dizer leve ou suporte passivamente, e sim assuma voluntariamente, adote ativamente. “A sua cruz” — que é desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas, apesar disso, é a marca distintiva de um verdadeiro crente. “E siga-me” — viva como Cristo viveu, para a glória de Deus.

O contexto imediato é ainda mais solene e impressionante. O Senhor Jesus acabara de anunciar aos seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de sua morte de humilhação (v. 21). Pedro, admirado, disse-Lhe: “Tem compaixão de ti, Senhor” (v. 22). Estas palavras expressaram a política da mentalidade carnal. O caminho do mundo é a satisfação e a preservação do “eu”. “Poupa-te a ti mesmo” é a síntese da filosofia do mundo. Mas a doutrina de Cristo não é “salva-te a ti mesmo”, e sim sacrifica-te a ti mesmo. Cristo discerniu no conselho de Pedro uma tentação da parte de Satanás (v. 23) e, imediatamente, a repeliu. Jesus disse a Pedro não somente que Ele tinha de ir a Jerusalém e morrer ali, mas também que todos os que desejassem tornar-se seguidores dEle tinham de tomar a sua cruz (v. 24). Existia um imperativo tanto em um caso como no outro. Como instrumento de mediação, a cruz de Cristo permanece única; todavia, como um elemento de experiência, ela tem de ser compartilhada por todos os que entram na vida.

O que é um “cristão”? Alguém que possui membresia em uma igreja na terra? Não. Alguém que afirma um credo ortodoxo? Não. Alguém que adota certo modo de conduta? Não. Então, o que é um cristão? É alguém que renunciou o “eu” e recebeu a Cristo Jesus como Senhor (Cl 2.6). O verdadeiro cristão é alguém que tomou sobre si o jugo de Cristo e aprende dEle, que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). O verdadeiro cristão é alguém que foi chamado à comunhão do Filho de Deus, “Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Co 1.9): comunhão em sua obediência e sofrimento agora; em sua recompensa e glória no futuro eterno. Não existe tal coisa como o pertencer a Cristo e viver para satisfazer o “eu”. Não se engane nesse ponto. “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27) — disse o Senhor Jesus. E declarou novamente: “Aquele que [em vez de negar-se a si mesmo] me negar diante dos homens [e não para os homens — é a conduta, o andar que está em foco nestas palavras], também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.33).

A vida cristã tem início com um ato de auto-renúncia, sendo continuada por automortificação (Rm 8.13). A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o deteve, foi esta: “Que farei, Senhor?” (At 22.10.) A vida cristã é comparada a uma corrida, e o atleta é chamado a desembaraçar-se “de todo peso e do pecado que tenazmente... assedia” (Hb 12.1) — ou seja, o pecado que está no amor ao “eu”, o desejo e a resolução de seguir nosso próprio caminho (Is 53.6). O grande e único alvo, objetivo e tarefa colocados diante do cristão é seguir a Cristo: seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pe 2.21); e Ele não agradou a Si mesmo (Rm 15.3). Existem dificuldades no caminho, obstáculos na jornada, dos quais o principal é o “eu”. Portanto, ele tem de ser “negado”. Este é o primeiro passo em direção a seguir a Cristo.

O que significa negar completamente a si mesmo? Primeiramente, significa o completo repúdio de sua própria bondade: cessar de confiar em quaisquer de nossas obras para recomendar-nos a Deus. Significa uma aceitação irrestrita do veredicto divino de que todos os nossos melhores feitos são “como trapo da imundícia” (Is 64.6). Foi neste ponto que Israel falhou, “porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3). Esta afirmativa deve ser contrastada com a declaração de Paulo: “E ser achado nele, não tendo justiça própria” (Fp 3.9).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino de Deus, se não se tornar como uma “criança” (Mt 18.3). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21.) “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22). Quando o Espírito Santo aplica o evangelho com poder em uma alma, Ele o faz “para destruir fortalezas, anulando... sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). Um lema sábio que todo cristão deve adotar é: “Não te estribes no teu próprio entendimento” (Pv 3.5).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar suas próprias forças: não ter qualquer confiança na carne (Fp 3.3). Significa prostrar o coração à afirmativa de Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Foi neste ponto que Pedro falhou (Mt 26.33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Quão necessário é que estejamos sempre atentos! “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12). O segredo do vigor espiritual se encontra em reconhecermos nossa fraqueza pessoal (ver Is 40.29; 2 Co 12.9). Sejamos, pois, fortes “na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria vontade. A linguagem de uma pessoa não-salva é: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14). A atitude de um verdadeiro cristão é: “Para mim, o viver é Cristo” (Fp 1.21) — honrar, agradar e servir a Ele. Renunciar a nossa própria vontade significa dar atenção à exortação de Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”; e isto é definido nos versículos seguintes como auto-renúncia. Renunciar a nossa própria vontade é o reconhecimento prático de que não somos de nós mesmos e de que fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20); é dizermos juntamente com Cristo: 

“Não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.36).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar as suas próprias concupiscências ou desejos carnais. “O ego de um homem é um pacote de ídolos” (Thomas Manton), e esses ídolos têm de ser repudiados. Os não-crentes amam a si mesmos (2 Tm 3.2 – ARC). Todavia, alguém que foi regenerado pelo Espírito diz, assim como Jó: “Sou indigno... Por isso, me abomino” (40.4; 42.6). A respeito dos não-crentes, a Bíblia afirma: “Todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus” (Fp 2.21). Mas, a respeito dos santos de Deus, está escrito: “Eles... mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). A graça de Deus está nos educando “para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12).

Este negar a si mesmo que Cristo exige dos seus seguidores é total. Não há qualquer restrição, quaisquer exceções — “Nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14). Este negar a si mesmo tem de ser contínuo e não ocasional — “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). Tem de ser espontâneo, não forçado; realizado com alegria e não com relutância — “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23). Oh! quão perversamente tem sido abaixado o padrão que Deus colocou diante de nós! Como este padrão condena a negligência, a satisfação carnal e a vida mundana de muitos que se declaram (inutilmente) “cristãos”!

“Tome a sua cruz.” Isto se refere à cruz não como um objeto de fé, e sim como uma experiência na alma. Os benefícios legais do Calvário são recebidos por meio de crer, quando a culpa do pecado é cancelada, mas as virtudes experimentais da cruz de Cristo são desfrutadas apenas quando somos conformados, de modo prático, “com ele na sua morte” (Fp 3.10). É somente quando aplicamos a cruz, diariamente, ao nosso viver e regulamos nosso comportamento pelos princípios dela, que a cruz se torna eficaz sobre o poder do pecado que habita em nós. Não pode haver ressurreição onde não há morte; não pode haver um andar prático, “em novidade de vida”, enquanto não levamos “no corpo o morrer de Jesus” (2 Co 4.10). A cruz é a insígnia, a evidência do discipulado cristão. É a cruz de Cristo e não o credo dEle que faz a distinção entre um verdadeiro seguidor de Cristo e os religiosos mundanos.

Ora, em o Novo Testamento a “cruz” representa realidades definidas. Primeiramente, a cruz expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus não veio para julgar, e sim para salvar; não veio para castigar, e sim para redimir. Ele veio ao mundo “cheio de graça e de verdade”. O Filho de Deus sempre estava à disposição dos outros: ministrando aos necessitados, alimentando os famintos, curando os enfermos, libertando os possessos de espíritos malignos, ressuscitando mortos. Ele era cheio de compaixão — manso como um cordeiro, totalmente sem pecado. O Filho de Deus trouxe consigo boas-novas de grande alegria. Ele buscou os perdidos, pregou aos pobres, mas não desprezou os ricos; e perdoou pecadores. De que modo Cristo foi recebido? Que boas-vindas os homens Lhe ofereceram? Os homens O desprezaram e rejeitaram (Is 53.3). Ele disse: “Odiaram-me sem motivo” (Jo 15.25). Os homens sentiram sede do sangue de Jesus. Nenhuma morte comum lhes satisfaria. Exigiram que Jesus fosse crucificado. Por conseguinte, a cruz foi a manifestação do ódio inveterado do mundo para com o Cristo de Deus.

O mundo não se alterou, assim como o etíope ainda não mudou a sua pele e o leopardo, as suas manchas. O mundo e Cristo ainda estão em antagonismo. Por isso, a Bíblia afirma: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). É impossível andarmos com Cristo e gozarmos de comunhão com Ele, enquanto não tivermos nos separado do mundo. Andar com Cristo envolve necessariamente compartilhar de sua humilhação — “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13.13). Foi isso o que Moisés fez (ver Hb 11.24-26). Quanto mais intimamente eu estiver andando com Cristo, tanto mais incorretamente serei compreendido (1 Jo 3.2), tanto mais serei ridicularizado (Jó 12.4) e odiado pelo mundo (Jo 15.19). Não cometa erro neste ponto: é totalmente impossível ser amigo do mundo e andar com Cristo. Portanto, tomar a cruz significa que eu desprezo voluntariamente a amizade do mundo, recusando conformar-me com ele (Rm 12.2). Que me importa a carranca do mundo, se estou desfrutando do sorriso do Salvador?

Tomar a cruz significa uma vida de sujeição voluntária a Deus. No que concerne à atitude de homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato. Mas, no que se refere à atitude do próprio Senhor Jesus, a sua morte foi um sacrifício espontâneo, uma oferta de Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência a Deus. Ele mesmo disse: “Ninguém a tira de mim [a vida dEle]; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” (Jo 10.18). E por que Ele a entregou espontaneamente? As próximas palavras do Senhor Jesus nos dizem: “Este mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo. Nisto, Ele é nosso exemplo. Citamos novamente Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Nas palavras seguintes, vemos o Amado do Pai assumindo a forma de um servo e “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

Ora, a obediência de Cristo tem de ser a obediência do cristão — voluntária, alegre, irrestrita, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, menosprezo e perdas, não devemos vacilar; pelo contrário, temos de fazer o nosso “rosto como um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais do que um objeto da fé do cristão, é a insígnia do discipulado, o princípio pelo qual a vida do crente deve ser regulada. A cruz significa entrega e dedicação a Deus — “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

A cruz representa sofrimento e sacrifício vicários. Cristo entregou sua própria vida em favor de outros; e os seguidores dEle são chamados a fazerem espontaneamente o mesmo — “Devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Esta é a lógica inevitável do Calvário. Somos chamados a seguir o exemplo de Cristo, à comunhão de seus sofrimentos, a sermos cooperadores em sua obra. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7), assim também devemos nos esvaziar. Cristo “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20.28); temos de agir da mesma maneira. Assim como Cristo “não se agradou a si mesmo” (Rm 15.3), assim também não devemos agradar a nós mesmos. Como o Senhor Jesus sempre pensou nos outros, assim devemos nos lembrar “dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos”, como se fôssemos nós mesmos os maltratados (Hb 13.3).

“Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). Palavras quase idênticas a estas se encontram também em Mateus 10. 39, Marcos 8.35, Lucas 9.24; 17.33, João 12.25. Esta repetição certamente é um argumento em favor da profunda importância de prestarmos atenção e atendermos às palavras de Cristo. Ele morreu para que vivêssemos (Jo 12.24); devemos agir de modo semelhante (Jo 12.25). Assim como Paulo, devemos ser capazes de afirmar: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo” (At 20.24). A “vida” de satisfação do “eu” neste mundo é perdida na eternidade. A vida que sacrifica os interesses do “eu” e se rende a Cristo, essa vida será achada novamente e preservada em toda eternidade.

Um jovem que concluíra a universidade e tinha perspectivas brilhantes respondeu à chamada de Cristo para uma vida de serviço para Ele na Índia, entre as classes mais pobres. Seus amigos exclamaram: “Que tragédia! Uma vida desperdiçada!” Sim, foi uma vida “perdida” para este mundo, mas “achada” no mundo por vir.


Fonte:Assembleianos Puritanos

O que é Reconstrucionismo? E Teonomia? por R.C. Sproul Jr.

Tal como ‘calvinismo’ e ‘teologia reformada’, estes dois termos (‘reconstrucionismo’ e ‘teonomia’) são volta e meia usados como sinônimos. Porém, é melhor entendê-los, respectivamente, como gênero e espécie. Ou seja: adesão ao calvinismo é uma parte do que significa ser um reformado mas não é a coisa completa. De forma similar, pode-se sugerir que teonomia é parte do conjunto mais amplo de convicções denominado de ‘reconstrucionismo’. Teonomia pode ser entendida como a persuasão de que a lei civil que Deus deu a Israel no Antigo Testamento também deveria ser a lei corrente em todas as nações do mundo.

Já o reconstrucionismo, caso não seja visto como um mero sinônimo, abrange, além de convicções teonômicas, uma escatologia otimista: a convicção de que o reino de Deus está crescendo e, antes do retorno de C risto, cobrirá o mundo como as águas cobrem o mar. Teonomia também inclui, em grande parte, um compromisso com a apologética (defesa da fé) vantiliana (isto é, de Van Til), também conhecida como ‘pressuposicionalista’. Tal perspectiva sugere, dependendo de quem a defende, que devemos pressupor a existência de Deus no intuito de provar a Sua existência, ou então que é impossível e perverso tentar provar a Sua existência (e, assim deveríamos simplesmente a pressupor). Outras pessoas acrescentam ainda mais detalhes ao definir o reconstrucionismo (por exemplo, a teologia do pacto), mas estes quatro (calvinista na teologia, teonômico na ética, otimista na escatologia e pressuposicional na apologética) são os principais elementos.

Há dois pontos importantes. Primeiro, independente de se adotar a teonomia ou não, todos nós cristãos deveríamos ser teonomistas de alguma forma. Meus amigos teonomistas sempre propõem duas alternativas: “autonomia ou teonomia!”, eles dizem. E, obviamente, estão corretíssimos. Nós teremos ou a lei humana ou a lei divina, e somente um néscio prefiriria os homens a Deus. A questão, então, se corretamente entendida, não é se devemos ter a lei que Deus quer que tenhamos. A questão, pelo contrário, é a respeito de qual lei Deus quer que nós tenhamos. Será que Deus deu a lei civil (isto é, a lei que diz respeito ao governo) a Israel como um paradigma ou padrão para a legislação ideal de qualquer Estado?

A Confissão de Westminster nos convoca a adotar o que os teólogos na época chamavam de ‘equidade geral’ da lei. Isto é, embora haja princípios fundamentais da justiça de Deus em operação na instituição da lei civil do Antigo Testamento, talvez seja necessário dar os ajustes apropriados e levar em conta que o nosso contexto é diferente daquele. Um exemplo comum é o seguinte: no Israel do Antigo Testamento, os proprietários de imóveis tinham que ter cercas nos seus telhados. Tal lei faria pouco sentido nos nossos dias, pois não temos o hábito de passar o tempo em cima das nossas casas. A ‘equidade geral’ sugere que o objetivo desta regra é a segurança física dos familiares e dos eventuais hóspedes. Assim, pode-se dizer que os proprietários modernos deveriam ter ‘cercas’ nas suas piscinas. Uma medida para o seu nível de proximidade em relação à teonomia como ideologia é refletido na precisão da sua aplicação dessa ‘equidade geral’.

Em segundo lugar, cuidado! Não dê ouvidos àqueles críticos que não entendem coisa alguma de teonomia ou de reconstrução. Aqueles de esquerda (teologica e politicamente) gostam de retratar os teonomistas e reconstrucionistas, herdeiros dos puritanos, como se fossem ‘jihadistas evangélicos’ do inferno que desejam impor um regime fascista calvinista sobre o resto do mundo. Isso é uma calúnia sem par! Os teonomistas, bem como o resto de nós cristãos, querem ver justiça no âmbito político. Eles querem ver as nações serem disciplinadas. Eles querem que o reino se manifeste. Eles querem ver todo joelho se dobrar e toda língua confessar que Jesus Cristo é Senhor. E quem é que, estando em Seu reino, poderia desejar outra coisa?
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O autor: R.C. Sproul Jr., filho do Dr. R.C. Sproul, é pastor da Confederation of Reformed Evangelical Churches e autor de livros que defendem uma perspectiva bíblica na educação doméstica, na economia, e na teologia.

Fonte: Teonomismo

Reflexões Sobre as Solas


       Bem, nós como cristãos devemos ser militantes e ‘’puritanizar’’ a sociedade.

     Antes de tudo devemos ter todo o nosso entendimento centrado na Bíblia. Nenhuma outra fonte de pensamento ou idéias é válida na teologia verdadeira. O verdadeiro teólogo é escravo da Bíblia, o papel dele nada mais é do que estudar a Bíblia e ensiná-la. 
     O cristão não pode seguir outra regra senão as Escrituras. A Bíblia é a revelação de Deus para nós. O cristão não deve ser guiado por nenhum outro tipo de manual, pois Deus nos deu o manual dele, a Bíblia é o manual da nossa vida e o manual do culto cristão!  Não devemos aceitar nenhum ensino a não ser a palavra que sai da boca de Deus, e essa palavra é a Bíblia, quer saber o que o Espírito Santo tem a dizer? Leia a Bíblia e descubra. As idéias que o cristão tem, devem ter base Bíblica, não acho que seja errado ler livros de autores não cristãos, porém as idéias do cristãos devem ser bíblicas, se a idéia de Cícero(exemplo de pensador não cristão) ser bíblica ótimo, mais se não for a rejeite totalmente!

   
    Somente Cristo salva. Só ele que morreu por nós pecadores na cruz. Ele é o mediador entre homem e Deus, nenhum outro tem esse poder. E sendo assim o cristão só deve pregar a Cristo. Muitos dizem que a evangelização deve ser de um determinado  jeito  com determinado ritmos pois é mais eficiente e mais pessoas irão ser salvas. Isso é anti-cristão, pois um método ou um ritmo musical não salvam, se uma pessoa vai para a igreja só para saciar a sensualidade de seus ouvidos, isso mostra que ele não se converteu a cristo e sim ao ritmo. Rejeito também o ensino papista que diz que a igreja [é a mediadora entre homem e Deus, e que Deus precisa de mediadores( santos) ora Cristo é o mediador, e não precisa de ninguém o ajudando nesssa tarefa.
 
     
     Outra coisa importante é a Graça de Deus. Nós não podemos nos salvar sozinhos, pois não passamos de vermes pecadores, que estão mortos em seus delitos e pecados e vivem para quebrarem a Lei de Deus. A Graça de Deus opera em nós primeiramente quando esse nos chama dente os mortos, ai passamos a ter fé, que é o único modo de obter salvação visto que pelas obras da lei não conseguimos nada além da justa condenação ao inferno.
      Deus também nos purifica. Muitos acreditam que a graça de Deus é que Deus nos perdoa de nossos pecados, ai podemos viver nossas vidas devassamente, porém iremos para o céu, pois Deus nos salva pela sua graça. Essa visão nada mais é do que inimiga da graça de Deus!  A graça opera em nós, e nós passamos a ser um novo ser, não temos mais as mesmas inclinação, antes tínhamos prazer em pecar, agora o nosso prazer está em Deus. Nós passamos a ter um novo sentido de vida, antes era o viver para si, agora é o viver para Deus, antes buscávamos nossa glória, agora buscamos glorificar a Deus!Pois a salvação não é sobre o que você faz e sim sobre o que você é, nós não somos salvos por que fazemos isso ou aquilo somos salvos pelo o que nós somos, o salvo tem a natureza diferente dos demais, ele é separado do mundo! E não podemos mudar a nossa natureza, o único que muda é Deus.

      
     Quero também afirma que a salvação é por fé e não por obras. Se a salvação fosse por obras então todos os homens teriam passaporte carimbado para o inferno. Fé é um sentimento que está dentro do nosso ser. Nós não escolhermos ter fé, Deus é que colocar fé nos nossos corações. Fé não é somente crê que  exista um Deus, fé é a pessoa sentir vontade de glorificar a Deus em tudo, e essa é a própria alegria e razão de se dele. Todos que tem fé serão salvos, porém aqueles que realmente têm uma fé verdadeira vão andar no caminho diferente do caminho que o mundo anda, e andar nesse caminho significa que a pessoa terá agora uma nova natureza, na qual Deus escreverá a Lei no seu coração e você agora passará a viver não para si, e sim para Deus!


    Afirmo também, que só Deus merece receber louvor e glória! Muitos dos que se dizem evangélicos acabam caindo no erro da idolatria. Ora chega um cantor famoso fazendo show, e as pessoas ficam aplaudindo ele como os mundanos fazem com os artistas, isso é idolatria. Os ‘’crentes’’  tem sempre o seu cantor ou pregador favorito, e se tiver um show deles, vão logo querendo autografo deles, ficam um passando em cima do outro só para falar com tal pessoa, isso é errado pois é idolatria, e só Deus merece se idolatrado.
     Muitos que se dizem evangélicos, passam mais tempo na TV do que tempo em meditação com Deus. Ora se vivemos para Deus, o sentido da nossa vida tem que se glorificar-lo em tudo. Porém muitos têm glorificado coisas vãs, em vez de glorificar a Deus. O verdadeiro Cristão irá glorificar a Deus em cada segundo na vida, o sentido na vida dele será glorificar a Deus, mesmo em um passa tempo( que nunca atrapalha a meditação com Deus) ele irá fazer para a glória do criador.


   Bem, fiz um pequeno texto defendendo algumas coisas que creio. Como vocês devem ter notado tratasse das cinco solas. Acho que as solas são um resumo da doutrina cristã!. Depois farei um texto melhor estruturado, e com bases bíblicas para cada afirmação!
    Infelizmente muitos dos que se dizem evangélicos, tem uma doutrina anti-bíblica, um doutrina que na verdade tem elementos da fé papista. Acho que devemos pregar a Bíblia, e assim( se for a vontade de Deus) ‘’puritanizar’’ a sociedade.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

É Sempre uma Falta de Amor Criticar e Julgar?


Tornou-se comum evangélicos acusarem de falta de amor outros evangélicos que tomam posicionamentos firmes em questões éticas, doutrinárias e práticas. A discussão, o confronto e a exposição das posições de outros são consideradas como falta de amor.

Essa acusação reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que considera todo confronto teológico como ofensivo. Nossa época perdeu a virilidade teológica. Vivemos dias de frouxidão, onde proliferam os que tremem em frêmito diante de uma peleja teológica de maior monta, e saem gritando histéricos, "linchamento, linchamento"!

Pergunto-me se a Reforma protestante teria acontecido se Lutero e os demais companheiros pensassem dessa forma.

É possível que no calor de uma argumentação, durante um debate, saiam palavras ou frases que poderiam ter sido ditas ou escritas de uma outra forma. Aprendi com meu mentor espiritual, Pr. Francisco Leonardo Schalkwijk, que a sabedoria reside em conhecer “o tempo e o modo” de dizer as coisas (Eclesiastes 8.5). Todos nós já experimentamos a frustração de descobrir que nem sempre conseguimos dizer as coisas da melhor maneira.

Todavia, não posso aceitar que seja falta de amor confrontar irmãos que entendemos não estarem andando na verdade, assim como Paulo confrontou Pedro, quando este deixou de andar de acordo com a verdade do Evangelho (Gálatas 2:11). Muitos vão dizer que essa atitude é arrogante e que ninguém é dono da verdade. Outros, contudo, entenderão que faz parte do chamamento bíblico examinar todas as coisas, reter o que é bom e rejeitar o que for falso, errado e injusto.

Considerar como falta de amor o discordar dos erros de alguém é desconhecer a natureza do amor bíblico. Amor e verdade andam juntos. Oséias reclamou que não havia nem amor nem verdade nos habitantes da terra em sua época (Oséias 4.1). Paulo pediu que os efésios seguissem a verdade em amor (Efésios 4.15) e aos tessalonicenses denunciou os que não recebiam o amor da verdade para serem salvos (2Tessalonicenses 2.10). Pedro afirma que a obediência à verdade purifica a alma e leva ao amor não fingido (1Pedro 1.22). João deseja que a verdade e o amor do Pai estejam com seus leitores (2João 3). Querer que a verdade predomine e lutar por isso não pode ser confundido com falta de amor para com os que ensinam o erro.

Apelar para o amor sempre encontra eco no coração dos evangélicos, mas falar de amor não é garantia de espiritualidade e de verdade. Tem quem se gabe de amar e que não leva uma vida reta diante de Deus. O profeta Ezequiel enfrentou um grupo desses. “... com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro” (Ezequiel 33.31). O que ocorre é que às vezes a ênfase ao amor é simplesmente uma capa para acobertar uma conduta imoral ou irregular diante de Deus. Paulo criticou isso nos crentes de Corinto, que se gabavam de ser uma igreja espiritual, amorosa, ao mesmo tempo em que toleravam imoralidades em seu meio. “... contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? Não é boa a vossa jactância...” (1Co 5.2,6). Tratava-se de um jovem “incluído” que dormia com sua madrasta. O discurso das igrejas que hoje toleram todo tipo de conduta irregular em seus membros é exatamente esse, de que são igrejas amorosas, que não condenam nem excluem ninguém.

Ninguém na Bíblia falou mais de amor do que o apóstolo João, conhecido por esse motivo como o “apóstolo do amor” (a figura ao lado é uma representação antiquíssima de João) Ele disse que amava os crentes “na verdade” (2João 1; 3João 1), isto é, porque eles andavam na verdade. "Verdade" nas cartas de João tem um componente teológico e doutrinário. É o Evangelho em sua plenitude. João ama seus leitores porque eles, junto com o apóstolo, conhecem a verdade e andam nela. A verdade é a base do verdadeiro amor cristão. Nós amamos os irmãos porque professamos a mesma verdade sobre Deus e Cristo. Todavia, eis o que o apóstolo do amor proferiu contra mestres e líderes evangélicos que haviam se desviado do caminho da verdade:

- “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19).

- “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo 2.22).

- “Aquele que pratica o pecado procede do diabo” (1Jo 3.8).

- “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” (1Jo 3.10).

- “todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo” (1Jo 4.3).

- “... muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo... Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus... Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más” (2Jo 7-1).

Poderíamos acusar João de falta de amor pela firmeza com que ele resiste ao erro teológico?
O amor que é cobrado pelos evangélicos sentimentalistas acaba se tornando a postura de quem não tem convicções. O amor bíblico disciplina, corrige, repreende, diz a verdade. E quando se vê diante do erro seguido de arrependimento e da contrição, perdoa, esquece, tolera, suporta. O Senhor Jesus, ao perdoar a mulher adúltera, acrescentou “vai e não peques mais”. O amor perdoa, mas cobra retidão. O Senhor pediu ao Pai que perdoasse seus algozes, que não sabiam o que faziam; todavia, durante a semana que antecedeu seu martírio não deixou de censurá-los, chamando-os de hipócritas, raça de víboras e filhos do inferno. Essa separação entre amor e verdade feita por alguns evangélicos torna o amor num mero sentimentalismo vazio.

O amor, segundo Paulo, “é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Coríntios 13.4-7). Percebe-se que Paulo não está falando de um sentimento geral de inclusão e tolerância, mas de uma atitude decisiva em favor da verdade, do bem e da retidão. Não é de admirar que o autor desse "hino ao amor" pronunciou um anátema aos que pregam outro Evangelho (Gálatas 1). Destaco da descrição de Paulo a frase “O amor regozija-se com a verdade” (1Coríntios 13.6b). A idéia de “aprovar” está presente na frase. O amor aprova alegremente a verdade. Ele se regozija quando a verdade de Deus triunfa, quando Cristo está sendo glorificado e a igreja edificada.

Portanto, o amor cobrado pelos que se ofendem com a defesa da fé, a exposição do erro e o confronto da inverdade não é o amor bíblico. Falta de amor para com as pessoas seria deixar que elas continuassem a ser enganadas sem ao menos tentar mostrar o outro lado da questão.


Fonte:O Tempora, O Mores